Entrevista com Octávio Machado, presidente dos Bombeiros de Palmela : “O Estado português deve-nos cerca de 100 mil euros”

O país está a viver uma pandemia e consequentemente tem sido nos bombeiros, profissionais de saúde e nas autoridades que o Governo se tem socorrido. Contudo o que não...

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O país está a viver uma pandemia e consequentemente tem sido nos bombeiros, profissionais de saúde e nas autoridades que o Governo se tem socorrido. Contudo o que não se tem falado são nas condições em que as corporações de bombeiros têm trabalhado nas últimas semanas.

Em entrevista ao Jornal do Pinhal Novo Octávio Machado aponta o dedo ao Governo e à Liga dos Bombeiros Portugueses e recorda que a dívida do Estado aos bombeiros do país ronda os “30 milhões de euros”

– No período de pandemia que estamos a viver, qual é a situação atual dos bombeiros?

A situação é aquela que naturalmente é igual a tantas, senão a todas as corporações de bombeiros do país, onde se verifica uma quebra enorme de serviços. Vivemos num estado de emergência, onde a capacidade de resposta não diminuiu, embora a nível de receitas e serviços os números baixaram drasticamente.

Aquilo que o Estado deixou de pagar, as consultas e os tratamentos que não estão a ser feitos representa uma enorme quebra de receitas porque deixamos de fazer transportes de doentes, só esta quebra de receitas que representa 80% dos nossos serviços, coloca as corporações de bombeiros numa situação frágil para poder assumir as suas responsabilidades com os trabalhadores e com os seus fornecedores. Para além dos encargos que temos com a aquisição dos equipamentos necessários nesta fase. É certo que temos apoios da autarquia e de alguns particulares, mas só a aquisição desse material é manifestamente superior àquilo que se recebe da emergência médica, portanto mais uma vez, os bombeiros de Portugal estão a financiar o Serviço Nacional de Saúde.

– Quando afirma que o Estado deixou de pagar, está a querer dizer que o Estado é o principal devedor dos bombeiros portugueses?

Sim, o Estado deve mais de 30 milhões de euros aos bombeiros portugueses, e não deve nem há um mês, nem dois, deve há muito mais tempo. E é por isso que fico indignado quando vejo que a Liga dos Bombeiros Portugueses, que hoje não tem conhecimento daquilo que é a gestão de uma associação de bombeiros, daquilo que são os seus encargos.

A primeira vez que o presidente da Liga falou, referiu-se a uma moratória, quando na verdade uma moratória é aquilo que os bombeiros estão a fazer ao Estado português, ao suportar as dívidas que têm para connosco. Depois fala em lay-off para os bombeiros. Isso é inadmissível, aliás é uma falta de respeito pensar-se sequer nessa hipótese.

A Liga tem que falar com os seus parceiros e não vá para contatos com o Ministro sem conhecer bem a realidade para que assim possa ser uma parceira das corporações de bombeiros, que neste momento não é.

Os bombeiros neste momento são contribuintes ativos do Estado, pagando mais de Segurança Social do que aquilo que recebem de comparticipação do Estado. Portanto, aquilo que deveria ser feito era neste período de pandemia as associações de bombeiros estarem isentas do pagamento da Segurança Social.

“Os bombeiros de Palmela jamais entrarão em lay-off e naturalmente que não haverá despedimentos”

– Há a hipótese dos Bombeiros de Palmela entrarem em lay-off?

Enquanto eu for o presidente desta corporação os bombeiros de Palmela jamais entrarão em lay-off e naturalmente que não haverá despedimentos.

Mas há diversas medidas que podem ser tomadas, nomeadamente com o pagamento das dívidas aos bombeiros, a isenção de Segurança Social até à estabilização da vida social do país, a isenção dos 10% que os bombeiros voluntários descontam quando têm piquetes gratificados. Porque a seguir vêm os fogos florestais, e se isto durar mais um mês ou dois, eu não acredito que as associações de bombeiros tenham qualquer capacidade de assumir os compromissos com os seus profissionais e com os seus fornecedores.

Relativamente aos fogos florestais, ainda, não conhecemos a diretiva financeira nem operacional, e se ela vier nos moldes das anteriores, então é natural que as associações não tenham qualquer capacidade de responder, nomeadamente no que se refere à capacidade de adquirir combustível ou de arranjar as viaturas. Portanto, o que se avizinha é algo de preocupante para as associações de bombeiros, embora cá tenhamos na autarquia de Palmela, nas Juntas de Freguesia e em algumas empresas parceiros fundamentais. Contudo temos de dizer, bem alto, que basta de faltas de respeito por parte do Governo.

– Essa falta de respeito vem só do Governo ou também vem da Liga dos Bombeiros Portugueses?

A Liga dos Bombeiros neste momento não tem o mínimo de conhecimento daquilo que é a gestão de um corpo de bombeiros. Se o tivesse não podia pedir moratórias, não aceitava pedir linhas de crédito, teria dito logo que não quando se reunião com o Ministro de Administração Interna. Teria, ainda, dito que não ao lay-off e teria recusado a antecipação dos duodécimos.

– Mas é um desconhecimento da Liga, ou uma maior afinidade com o Governo?

Diria que é um pouco das duas coisas. A Liga está mais preocupada com a sua gestão. 

– Fala de uma quebra de 80% nas receitas dos bombeiros. Relativamente aos Bombeiros de Palmela, como é que se vive com uma quebra tão alta das receitas?

A corporação de Palmela vai viver como tem vivido até aqui, ou seja, tranquilamente cumprindo com os seus compromissos, mas sei que existirão corporações que não vão conseguir cumprir.

Contudo não penso que o mal da situação que vivemos seja do Ministro da Administração Interna ou da Secretária de Estado, A conclusão que eu realmente tiro daqui é que o senhor Mário Centeno não passa de um contador de histórias, sendo insensível ao bem-estar do povo português e sobretudo que quando se fala em pagamentos, que seja o Estado a ser cumpridor e seja o primeiro a dar o exemplo.

– Acha que o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, tem olhado para os bombeiros portugueses com seriedade?

Acho que sim, mas encontra pouca repercussão em Mário Centeno e António Costa. Estes sim, são os dois grandes responsáveis pelo que tem acontecido aos bombeiros.

“Aquilo que realmente me deixa feliz é ver a solidariedade do povo português”

– Os equipamentos que vêm ANPC são poucos. Os apoios que têm vindo da Câmara Municipal, Juntas de Freguesia e empresas são suficientes?

Somando àquilo que temos adquirido com dinheiro da associação sim, de outra forma seria impossível.

Dou como exemplo a Federação de Bombeiros de Évora, que comprou 600 fatos integrais para distribuir pelas associações de bombeiros do distrito de Évora, quando há poucos dias foi anunciado na televisão que havia 1000 equipamentos integrais para distribuir pelas 436 corporações do país, ou seja dá fato e meio por associação, só por aqui podemos ver que os bombeiros portugueses merecem mais respeito, tal como os agentes da PSP e da GNR que diariamente estão no terreno também têm de ser respeitados. Ainda assim, aquilo que realmente me deixa feliz é ver a solidariedade do povo português, que apesar de tudo continua a contribuir para que os profissionais de saúde, os agentes da PSP ou GNR e os nossos bombeiros tenham algumas condições de trabalho.

– Já referiu o valor que o Estado deve aos bombeiros portugueses. O que lhe pergunto é qual o valor que deve aos Bombeiros de Palmela?

O Estado português deve-nos cerca de 100 mil euros, tudo em trabalho que já foi prestado pelos bombeiros, mas continuaremos a fazer esse trabalho.

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