Memórias do 25 de Abril: Da proibição de votar à presidência da assembleia de voto

João Botelho tem 89 anos e é sapateiro. Recorda-se do 25 de Abril de 74 como se fosse hoje. Insatisfeito com a realidade que se vivia, em...

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João Botelho tem 89 anos e é sapateiro. Recorda-se do 25 de Abril de 74 como se fosse hoje. Insatisfeito com a realidade que se vivia, em Portugal, antes da data, João Botelho fez dois requerimentos para poder votar. Ambos vieram indeferidos. “Fiquei danado com aquilo porque não podia votar”, contou o sapateiro.

João Botelho recorda-se, especialmente, de uma história que viveu na época da ditadura. “Uma vez fui a Lisboa, a um restaurante, estávamos sentados a almoçar e ao meu lado estava sentado um senhor que pertencia à PIDE”. Durante o almoço, João Botelho conversava sobre a freguesia de Quinta do Anjo, na qual é residente. Ao ouvir a conversa, o militar da PIDE acabou por contar-lhe que conhecia muito bem a Quinta do Anjo, uma vez que já lá tinha feito serviço. Quando João Botelho já tinha terminado a sua refeição e preparava-se para sair, o homem pediu-lhe que não se fosse embora, que espera-se um pouco. “Quando ele disse isso, eu pensei “mau!”, explicou o sapateiro, na altura com receio do que o esperava. Acontece que não havia nada a recear. O militar, que disse conhecer tudo aquilo que João Botelho referira, durante o almoço, sobre a freguesia de Quinta do Anjo, apenas queria prestar o seu apoio “se o senhor algum dia se ver atrapalhado, telefone”, disse ao homem ao entregar-lhe um cartão com o seu contacto. Passados vários anos deste episódio, João Botelho ainda guarda o cartão, como se de uma relíquia se tratasse. “Este foi o único homem que me abordou e não levou nada de mim”, explicou.

Com a chegada do 25 de Abril, o homem a quem não permitiam votar, passou a ser presidente da mesa de voto. Chegaram as primeiras eleições e João Botelho preparou um discurso para o tão esperado dia. O discurso, escrito pelas suas próprias mãos, continua intacto, guardado junto ao cartão do militar da PIDE. Nele constam, entre outras, as seguintes frases “como todos sabem estas eleições são livres, nunca conhecemos nenhumas em Portugal, é certo que vamos aprender muito no decorrer das mesmas”, e “agora na qualidade de presidente, peço-vos que encaremos esta assembleia de voto com a cabeça firme das nossas responsabilidades oficiais, cívicas e morais”. João Botelho lê estas frases com a mesma firmeza que as leu há 44 anos atrás.

É certo que muita coisa mudou com a revolução dos cravos, e, na opinião de João Botelho, o concelho de Palmela tem progredido muito. “Ouço muito a rádio, e a minha mulher também, ouço muitas dificuldades nas Câmaras do País, mas na Câmara de Palmela, acho que tem corrido bem”, concluiu o sapateiro.

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