Em Palmela, Domingo à tarde. Eu, o grupo da Bengala Mágica, na companhia da Conceição, caminhava, a subir, a subir, O Sol a se fazer sentir, pelo meio do burburinho. Ao som da música, toda igual, toda diferente, afinal, música bem a lembrar a Idade Média. De ambos os lados da rua, em qualquer espaço adjacente, bancas e mais bancas. Era o mercado medieval: bancas de artesanato, artigos tradicionais e produtos feitos à mão. O movimento, pelo meio da tarde, era já grande. Fizemos uma breve paragem numa banca. Uma banca com todas as essências possíveis, quem sabe, até ambrosia!
Cruzávamo-nos com artesãos, cavaleiros, frades, todos eles bem vestidos ao rigor desses tempos. Um grupo de odaliscas, todas elas bem jovens, barrigas meio à mostra. Parámos um pouco a apreciar um acampamento temático. Nele parecia acontecer uma espécie de confronto entre diversos contendores, talvez uma justa ou a demonstração de uma atividade e costume antigo qualquer. Cruzavam-se espadas, paus…
Mais para a tarde, o momento da gastronomia. Eram muitas as tabernas e bancas com comida e bebidas, num ambiente inspirado na época. Bem que havia de apreciar um bom copo de sangria a acompanhar um quentinho pão com farinheira. Isto depois do espectáculo que me esperava na capela de Santiago, bem no centro do castelo.
Aliás, esta Feira Medieval tem como tema «Palmela, Dom Afonso IV e a Ordem de Santiago, 1340-1348». A história imaginada para esta edição retrata uma visita do rei Dom Afonso IV ao castelo, acompanhado pela rainha e pelo príncipe Dom Pedro. Embora essa visita seja fictícia, a feira inspira-se na história real de Palmela e na importância da Ordem de Santiago.
Entretanto, bem à entrada do castelo, um grupo de músicos fazia a nossa festa. Eram os timbales, o bombo, a gaita de foles… A acompanhar a música uma pequena multidão. Trauteavam, batiam palmas, dançavam. Também nós nos juntámos à festa neste momento tão agradável. Aproveitei para executar uns saltinhos de dança, que, ainda por cima, era uma diversão na subida que se vinha fazendo.
Entrava na Igreja de Santiago. o interior está dividido em três naves, separadas por arcos ogivais, bem ao estilo gótico. Tectos e abóbadas apresentam uma construção simples, com linhas geométricas bem definidas. Com bonitos azulejos. De um azul claro, dos séculos XVII e XVIII, alguns dos quais apresentam motivos associados à Ordem de Santiago. No interior uma iluminação discreta. a luz natural entra de forma limitada, criando um ambiente de recolhimento. Ao centro lápides tumulares. Figuras de cavaleiros, dignitários da Ordem de Santiago. Importante é o túmulo de Dom Jorge de Lencastre, feito em pedra em tons de vermelho, da Arrábida, que permanece sobre um arco decorado, de estilo manuelino.
E era aqui que íamos assistir ao espectáculo, a narração da história de Portugal até Dom Afonso IV, Ia ser narrada pelo Teatro de Marionetas de Mandrágora. O elemento cénico característico do grupo é uma carroça, inspirada nos palcos ambulantes da Idade Média. Este dispositivo remete para os artistas que percorriam vilas e cidades, apresentando histórias ao povo e à nobreza. Assim, tudo se centrava na carroça. Nesta, como nos tecidos, nos figurinos dos artistas, as cores que predominavam eram o verde, o amarelo e grená. Por cima umas cortinas que mal deixavam ver o interior. Um cesto com bonecos dentro. Num tapete colocado à frente da carroça, lado a lado, diversos vasos, postos ao contrário.
Três actores, um moreno, um segundo com bigode, um terceiro com barba. E a juntar a isto, tínhamos a Anaísa da AR Produções. Ela era a audiodescritora que nos ia descrever os diversos momentos da narrativa, aqueles que as palavras dos actores não esclareciam. Os actores actuavam num amplo tapete existente na frente da carroça. Ora evoluíam ao longo deste, ora se deslocavam para trás da carroça. Pegavam em algum artefacto… Tocavam o bombo. Como jograis, cantavam a história do pequeno reino existente a Norte de Coimbra.
Surge a marioneta de Dona Teresa. É cantado o seu poder, a sua força, escudado em Peres de Trava, o Galego. É apresentada, então, a marioneta do pequeno Afonso Henriques. Começa a dissenção, a imposição de um jovem a saber aquilo que quer. Afonso Henriques põe em causa o modo de governar o pequeno reino, quer mais. Dá-se a Batalha de São Mamede, em 24 de Abril de 1128. Que é vencida pelo jovem. Teresa é banida da governação. É posta na cabeça do jovem guerreiro a coroa do poder. A sua luta começa. O novo reino vai surgir!
Os jograis vão cantando as lutas, os feitos dos reis que governaram, que criaram o Reino de Portugal. Sempre com os seus cantos, com os seus gestos, servindo-se dos artefactos da carroça, interagem com o público. Por fim, após Dom Dinis, o rei que tanto deu a Portugal, como o Pinhal de Leiria, são mostradas as marionetas de Dom Afonso IV, da rainha e do pequeno Pedro, futuro Pedro I. E, assim, com a espada, a coroa, que ia sendo posta na cabeça dos reis anteriores até Dom Afonso IV; aquele que ajudou um rei vizinho na Batalha do Salado…
Com vénias e mais vénias, os nossos jograis, ajoelhavam, levantavam-se, batiam palmas em interacção com todos nós. E, assim, com a transformação de um pano branco com uma cruz em vermelho, que se tornou bandeira, ficou narrada a história do Reino de Portugal. Tão bem cantada, tão bem narrada, pelos nossos jograis! E, para mim, muito bem audiodescrita pela Anaísa!
Agostinho Costa









