Carlos Valente termina mandato com “ a sensação de missão cumprida”

Assumiu o clube de Palmela a 25 de Maio de 2019 com uma dívida que rondava ou 75.000€ e com a promessa de que iria dar estabilidade financeira ao...

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Assumiu o clube de Palmela a 25 de Maio de 2019 com uma dívida que rondava ou 75.000€ e com a promessa de que iria dar estabilidade financeira ao Palmelense.

Dois anos depois, Carlos Valente assegura que o “Clube não tem dívidas relevantes”.

 – Depois de 2 anos na presidência do PFC e tendo em conta que sempre afirmou que só ficaria no clube até devolver a estabilidade financeira do Palmelense. É possível afirmar que o objetivo foi conseguido?

Os sócios mandataram esta Direção para o Biénio 2019-2021 e embora este mandato tenha sido marcado por ocorrências extraordinárias (pandemia), penso que conseguimos cumprir com o que nos propusemos. No que diz respeito, especificamente, à parte financeira do clube e como já mencionei em várias ocasiões penso que foi o aspeto mais negativo e desafiante que encontrámos. Com uma dívida muito elevada (cerca de 75.000 €) e sem qualquer montante disponível no banco, foi muito difícil dar a volta à situação. Mas, a Direção em conjunto “meteu” mãos à obra e com a ajuda de muitos patrocinadores, das entidades locais, entre outros, e uma gestão financeira precisa, onde todos os cêntimos contam, conseguimos endireitar as finanças do clube.

E é preciso dizer que neste momento, o Clube não tem dívidas relevantes e tem um saldo bancário na ordem dos 10.000 € para fazer face à manutenção da atividade corrente.

Nesse sentido e concluindo confirmo, que neste aspeto o objetivo foi conseguido.

“O “segredo” é gerir as receitas e as despesas de forma equilibrada”

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 – Mas  quando assumiu a direção o PFC tinha uma dívida que rondava os 75.000€. Em 2 anos, que na verdade foram meses, pois os últimos 15 meses são de pandemia. Conseguiu devolver a estabilidade financeira do Palmelense? Como?

Na verdade uma parte significativa da dívida encontrada foi solucionada antes da pandemia. Isto é, em Março de 2020, antes do primeiro confinamento o Palmelense já se encontrava numa situação mais estável em termos financeiros. Conseguimos corrigir os desequilíbrios financeiros e com a ajuda da receita do Bar de Sócios, da Escola de Formação e de angariação de patrocínios e outros apoios financeiros, mas acima de tudo operámos uma grande ação de contenção de custos. Apenas um exemplo: Nas Direções anteriores não havia controlo dos pagamentos de impostos ao Estado o que levava a coimas e outros juros de mora. Quando tomámos posse, esse controlo foi feito de imediato evitando assim custos adicionais.

Num clube de futebol, como numa empresa qualquer ou mesmo no seio da nossa família, o “segredo” é gerir as receitas e as despesas de forma equilibrada, onde cada cêntimo conta como um cêntimo e em paralelo saber criar dinâmicas de credibilização da nossa ação para que os diversos parceiros confiem no nosso trabalho e ajudem também. Se assim for é possível encontrar essa tal equilíbrio de gestão quer financeira, quer de credibilidade para com as várias entidades com as quais interagimos. 

Em suma a postura é olhar para as adversidades e transformá-las em oportunidades e agir sempre de forma séria e honrosa. Se assim for, o resultado acontece quase de forma espontânea.

 – No seu mandato qual foi para si o pior momento?  E o melhor momento?

Sorrisos… é uma pergunta difícil, pois durante estes dois anos vivi sempre com um sentimento agridoce, isto é, houve sempre momentos melhores e piores, muitas vezes no mesmo dia.

Vou apenas referir um ou outro para poder exemplificar o que quero dizer. No dia 10 de Março de 2020, estava no Bar do Palmelense com o Bruno Pombo (Vice-Presidente) e outros elementos e porque vinha de mais uma jornada intensiva de trabalho, disse: “Estamos fora de água no que respeita à parte financeira e os nossos Séniores estão a ganhar. Acho que podemos terminar esta época em grande”.

E três dias depois o Governo decidiu o confinamento geral de todas as atividades por tempo indeterminado devido à pandemia SARS-COV2. Foram provavelmente os dois momentos que me pediu para mencionar. O melhor e o pior.

A verdade é que, após uma semana de confinamento entendemos que tínhamos que manter o contacto com os nossos atletas e decidimos criar planos de treino em casa, bem como diversas atividades que permitiam manter esse contacto. E duas semanas mais tarde juntámos um conjunto de pessoas da Direção e fora dela e decidimos iniciar um plano de obras de recuperação da infraestrutura do clube. Durante praticamente todos os sábados do último ano fomos ao Palmelense e fizemos variadíssimos trabalhos de obras o que permitiu manter o contacto e ao mesmo tempo ir desenvolvendo o clube. Hoje orgulho-me de ter conseguido transformar uma forte ameaça à sobrevivência do clube, numa oportunidade que permitiu preparar o Palmelense FC para o futuro.

Resumindo posso dizer que o pior momento foi a privação do contacto com atletas, sócios e pais a que fomos submetidos durante o passado ano e o melhor foi a capacidade que tivemos para enfrentar isso e transformar o clube numa estrutura mais forte e preparada para o futuro. Enfim, embora com muitos objetivos por cumprir termino o mandato com a sensação de missão cumprida.

“O Palmelense FC não tem sido bem tratado no passado, nem por Direções, nem pelos sócios, nem pelas Entidades de Gestão Local”

–   Na sua primeira entrevista ao JPN, ainda como candidato, afirmou que  “O Palmelense poderia ter um Ferrari, mas tem um Fiat”. Hoje que “carro” tem o Palmelense?

Bom, essa expressão não é minha, mas eu gostei dela quando outra pessoa a utilizou em conversa comigo.

Quando utilizei essa expressão nem sabia que o Fiat estava em tão mau estado. Hoje posso dizer que embora todas as adversidades que vivemos, temos talvez um BMW, mas não conseguimos chegar ao Ferrari.

Na verdade, como já mencionei em Assembleias Gerais, hoje digo com alguma“tristeza” que me apercebi que o Palmelense FC não tem sido bem tratado no passado, nem por Direções, nem pelos sócios, nem pelas Entidades de Gestão Local. Acho que essas três partes deveriam pensar de forma integrada e em conjunto apoiar o Clube no sentido deste se tornar um centro de promoção do desporto em Palmela e não apenas um clube futebol. Temos todas as condições para desenvolver um Pólo desportivo praticamente no centro de Palmela e assim incentivar a comunidade a hábitos mais saudáveis o que permitiria também contribuir para a melhoria da forma física e da saúde em geral.

O Palmelense FC, pelas suas características e pela sua localização geográfica possui todas as condições para ter muito sucesso e para ser reconhecido como esse centro desportivo de Palmela, mas para isso é importante esquecermos o que nos separa e enaltecermos o que nos une. Deixo um exemplo do que eu faria se estivesse à frente da Câmara Municipal de Palmela. A Palmela Desporto, EM tem demonstrado ao longo dos anos que não está preparada para gerir o Complexo Municipal e essa gestão deficiente tem vindo a criar um “buraco” financeiro onde as despesas decorrentes da manutenção deste espaço são francamente superiores às receitas, e mesmo assim são atenuadas com as subvenções que são atribuídas ao Palmelense FC e a outras entidades. Os valores atribuídos pela Câmara Municipal de Palmela para utilização do Complexo Municipal foram de 30.000 € em 2019-2020 e 25.000 € em 2020-2021 e o Palmelense FC não conseguiu utilizar nem metade, derivado à pandemia, mas também à constante impossibilidade de utilização devido ao mau estado do relvado ou da necessidade de manutenção do mesmo. Ora não parece correto que a Câmara atribua um subsídio ao Palmelense FC e embora o mesmo não seja utilizado, este seja esquecido nas contas da Palmela Desporto, EM. Acho que esses subsídios ao Palmelense deveriam ser atribuídos ao Clube e o clube utilizaria da forma mais adequada. Assim, não passa de uma forma de subsidiar a Palmela Desporto, EM utilizando o nome do Palmelense FC. Mas é algo que deixo para todos pensarmos.

 – Na mesma entrevista afirmou, ainda, que o Palmelense deveria estar assente em três pilares: Organização, Futebol e Modalidades e Sociedade. O objetivo foi conseguido?

Esta pergunta é de difícil resposta porque quando nos candidatámos e elegemos esses três pilares não antecipámos uma pandemia sem precedentes, o que inviabilizou muitos dos nossos objetivos.

No que diz respeito à Organização deixamos o clube totalmente preparado em termos administrativos, informáticos, no que respeita à Certificação mantemos as três estrelas (máximo possível para clubes no âmbito distrital), conseguimos o reconhecimento do IPDJ em termos de ética e fair-play no desporto com o recebimento da Bandeira da Ética e em termos de infraestruturas arrumámos, limpámos e acabámos as obras que estavam em curso e por isso é lícito dizer que tivemos sucesso.

Em termos de Futebol e Modalidades, com a pandemia tornou-se difícil aferir o sucesso, mas posso dizer que mantemos quase o mesmo nível em termos de praticantes no futebol, aumentámos ligeiramente os praticantes no atletismo e integrámos a Ginástica Rítmica no Clube com cerca de 40 atletas e que poderá crescer para cerca de 100 em contexto normal (após ultrapassada a pandemia). Não conseguimos terminar a época de Séniores masculinos em 2019-2020, mas na interrupção/término desse campeonato ficámos num honroso 6º lugar (o melhor dos últimos três anos) e esta época foi totalmente atípica o que não me permite concluir sobre o sucesso ou insucesso. Já nos Seniores femininos conseguimos terminar esta época em 3º lugar o que foi muito positivo e abre boas perspetivas para o futuro.

Finalmente no pilar Sociedade, tínhamos como objetivo abrir o clube a todos e interagir com as várias instituições o que me parece que foi conseguido. Hoje o clube possui excelentes relações com as Entidades de Gestão Autárquica, com a Escola Secundária de Palmela, os Clubes do Concelho e do Distrito, bem com outras diversas Associações como por exemplo os Bombeiros de Palmela. Tentámos cativar as pessoas a olhar para o Palmelense FC como uma associação amiga e em Agosto de 2019 ainda conseguimos realizar a Gala Palmelense com a apresentação da Equipa Sénior no Largo de S. João o que foi um sucesso, mas entretanto abateu-se a pandemia e os nossos projetos foram todos suspensos até ser possível cativar a sociedade a “viver” o Palmelense de forma intensa outra vez.

Penso que esses tempos virão e poderemos todos viver em sociedade de forma equilibrada e salutar no futuro próximo.

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“Faço questão de contribuir para que a nossa sociedade seja melhor e providencie melhores condições à população”

 – Agora que está de saída e depois de 2 anos dedicados ao movimento associativo local. Há novos projetos para Palmela?

Este mandato no Palmelense FC ajudou-me a perceber a realidade do movimento associativo de Palmela, onde existem pontos positivos e negativos como em todo o lado. Decidi não me recandidatar a Presidente da Direção, mas continuarei a ajudar o Palmelense FC como patrocinador e como sócio. Tal como mencionei anteriormente, tenho a certeza que este clube tem todas as condições para evoluir e crescer no futuro, precisa de todos e que todos ajudem e eu assim farei no limite das minhas capacidades.

Mas, tenho que dizer que eu vivo o associativismo e a política desde tenra idade e isso é como um vício que não se estranha, mas que se entranha. Agora que estou mais à vontade no que diz respeito à realidade de Palmela faço questão de contribuir para que a nossa sociedade seja melhor e providencie melhores condições à população em geral e estarei sempre disponível dentro das minhas competências. A minha contribuição dependerá sempre de desafios que me coloquem ou que eu entenda que necessitam da minha pessoa.

– Sente que os compromissos que assumiu perante os sócios estão cumpridos?

Os compromissos que assumi perante os sócios foram a recuperação do clube em termos financeiros, em termos administrativos, em termos de infraestruturas e com isso garantir um futuro mais sustentável para fazer crescer a parte desportiva.

No que diz respeito à recuperação do Palmelense FC, penso que conseguimos, mesmo com tantas adversidades como mencionei anteriormente, agora na parte desportiva, não foi possível comprovar que tínhamos essa capacidade, até porque a pandemia não o permitiu.

Mas o que agora interessa é, que as gerações vindouras poderão estimular a parte desportiva para afirmar com sucesso o Palmelense Futebol Clube como uma referência distrital. Confio que assim será.

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